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Antes consideradas solitárias, onças-pardas têm vida social complexa

A descoberta surpreendente muda concepções antigas sobre a vida de um dos felinos mais simbólicos das Américas.

Por décadas, pensou-se que a onça-parda (Puma concolor), também conhecida como leão-da-montanha, puma ou suçuarana, era um predador solitário, que encontra outros membros da espécie apenas para acasalar ou disputar territórios.

Porém, um novo estudo mostra que, diferente do que se imaginava, as onças-pardas construíram, silenciosamente, uma sociedade rica e hierárquica baseada em grande parte no compartilhamento de comida. A descoberta vai de encontro com as preconcepções de cientistas sobre um dos grandes felinos mais simbólicos das Américas.

“Durante mais de 60 anos de pesquisas, nós dizíamos que [onças-pardas] são máquinas mortíferas solitárias e robóticas”, disse Mark Elbroch, cientista-chefe do programa de onças-pardas da Panthera, uma organização global de conservação de grandes felinos. “Em vez disso, descobrimos que ele é um animal discreto com sistema social complexo e inteiramente criado sobre a reciprocidade”.

“Isso contraria tudo que pensávamos sobre este animal”, diz o cientista.

“Pensei que seria uma pesquisa muito emocionante – normalmente, nós presumimos que estes animais não são sociais”, acrescenta Justine Smith, pesquisadora pós-doutoranda da Universidade da Califórnia, em Berkeley, que estuda os impactos causados por homens nas onças-pardas. Ela não estava envolvida com esse estudo.

CÂMERA ESCONDIDA

De acordo com Elbroch, a descoberta feita por sua equipe – publicada no Science Advances – deveu-se mais à tecnologia do que à paciência. Ele afirma que, por anos, ele e outros pesquisadores observaram onças-pardas se encontrando, mas não conseguiam compreender as interações.

Tudo mudou quando Elbroch, bolsista de conservação da National Geographic, instalou uma rede de armadilhas fotográficas em cerca de 1,5 mil quilômetros no grande ecossistema de Yellowstone para registrar onças-pardas em ação.

No começo, a rede de câmeras de Elbroch não buscava evidências da sociedade de onças-pardas – a descoberta foi uma feliz coincidência. Originalmente, ele pesquisava a alimentação das onças-pardas para que pudesse estimar com precisão o consumo calórico diário e o impacto no ecossistema. Nesta questão em específico, as armadilhas renderam verdadeiros tesouros. Em estudo publicado no periódico Biological Conservation, Elbroch provou que a maior diversidade de necrófagos já registrada em todo o mundo ocorre em locais onde onças-pardas abatem suas presas.

No entanto, ele não estava preparado para o momento, no início do ano de 2012, em que se deparou com uma cena extraordinária. Analisando as imagens das câmeras, viu uma onça-parda fêmea adulta se aproximar da carcaça de um alce que outra fêmea tinha matado.

As duas grunhiram e tentaram se impor, até que, para surpresa de Elbroch, a onça que matou a presa permitiu que a recém-chegada compartilhasse a refeição. Este ato de generosidade não foi isolado – as duas permaneceram juntas por um dia e meio. E, como mostram os dados genéticos recentemente analisados, elas eram parentes.

Na prática, as câmeras de Elbroch capturaram a primeira amizade entre onças-pardas que a ciência já teve conhecimento.

“Isso destruiu tudo que pensávamos saber sobre a espécie. Eu lembro de jogar minhas mãos para os céus”, afirma o cientista.

De início, Elbroch achou que tinha testemunhado algo raro. No entanto, depois de focar no comportamento dos animais, teve uma nova surpresa: a primeira imagem não retratava algo tão incomum quanto ele imaginava. Entre 2012 e 2015, as câmeras de Elbroch capturaram 118 interações entre duas onças-pardas. 60% das imagens foram feitas em locais onde presas foram abatidas – e muitas envolviam o mesmo comportamento de compartilhamento de alimento que ele havia visto anteriormente. (Conheça os evasivos gatos selvagens que você nunca sequer ouviu falar.)

Elbroch passou a ver cada vez mais onças-pardas “permitindo” o acesso de outras aos seus locais de caça. Em encontros futuros, há uma probabilidade 7,7 vezes maior que a segunda onça-parda devolva o favor.

MAPA DOS RELACIONAMENTOS

Além de permitir capturar esses relacionamentos em vídeo, os dados coletados pela equipe de Elbroch ajudaram a desenhar mapas da sociedade das onças-pardas. Quais onças estavam saindo umas com as outras com mais frequência? Quem visitou quem?

Em uma parceria com Mark Lubell e Michael Levy, da Universidade de Califórnia, em Davis, Elbroch mapeou os relacionamentos entre as onças-pardas como um emaranhado de nós interconectados. A equipe pôde, então, quantificar matematicamente o quão interconectadas elas estão dentro de um determinado grupo social.

Os dados revelaram que a sociedade das onças-pardas não só existe como também é baseada em hierarquia. As fronteiras territoriais entre grupos sociais diversos são definidas pelo território dos machos solitários. Fêmeas são mais propensas a interagir com machos cujo território se sobrepõe ao dela do que com machos cujo território é diferente.

Em outras palavras, os machos parecem desempenhar um papel importante na sociedade das onças-pardas. Elbroch os compara à governantes territoriais.

“Muitas pessoas parecem ter entendido que os machos devem ser importantes para a organização social das onças-pardas, [mas] ninguém sabia como”, disse Elbroch. “A parte mais legal é que realmente fizemos análises matemáticas e estatísticas avançadas que mostraram, com clareza, porque machos são importantes na organização social das onças-pardas.”

IMPACTOS DA CAÇA

Apesar de todas as informações obtidas pelo estudo, outras pesquisas terão que confirmar se outras populações de onças-pardas em outros lugares das Américas possuem os mesmos vínculos sociais.

"Eu adoraria que mais trabalhos fossem feitos para ver se isso é algo generalizável. Pode haver algum tipo de necessidade – talvez o tamanho ou a disponibilidade da presa – [que faria com que essa população] quisesse ou precisasse se envolver nesse tipo de rede", diz Smith.

Também não está claro como a caça às onças-pardas pode afetar a sociedade recém-descoberta – nenhuma das onças estudadas por Elbroch foi morta por caçadores durante o período de observação.

Mas Elbroch imagina que a remoção de um macho de uma população de onças-pardas possa levar a uma agitação social. A hipótese pode ajudar agências protetoras de vida selvagem a melhorar o manejo da espécie.

"Se isso está criando um caos social, o que vamos fazer a respeito?”, disse Elbroch. “Permitiremos que a caça continue? Adotaremos novas estratégias?”

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