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Categoria: Universo
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Duas descobertas excepcionais revelam a existência de carbono orgânico no Planeta Vermelho, dando gás a futuras buscas por vida marciana.

Dia após dia, facilmente perde-se de vista um fato surpreendente: desde 2012, a humanidade está a bordo de um poderoso veículo do tamanho de um carro SUV em outro planeta.

Essa maravilha da engenharia, o rover Curiosity da Nasa, tem revolucionado nosso entendimento sobre o Planeta Vermelho. E, graças ao intrépido veículo, agora sabemos que a Marte antiga tinha componentes feitos de carbono chamados de moléculas orgânicas – matérias imprescindíveis para a vida como a conhecemos.

Novo estudo publicado nesta quinta-feira (7/06) pela revista Science apresenta a primeira evidência conclusiva sobre largas moléculas orgânicas na superfície de Marte, uma busca que começou com o projeto Vikings, da Nasa, nos anos 1970. Testes iniciais deram a dica sobre compostos orgânicos, mas a presença de clorina na poeira marciana dificultou tais interpretações.

“Quando se trabalha com algo tão único como um rover em Marte, o mais complexo instrumento já enviado ao Espaço, parece que estamos fazendo o que antes era tido como impossível”, diz Jennifer Eigenbrode, biogeoquímica da Nasa Goddard e autora principal do estudo. “Trabalho com um incrível grupo de pessoas em Marte, e descobrimos muito”.

 

Rochas se alinham em um antigo canal em que água pode ter existido em Marte.

 

Os últimos dados do Curiosity revelam que o lago aquoso que outrora preencheu a cratera de Gale, em Marte, continha moléculas orgânicas complexas de cerca de 3,5 bilhões de anos. Há vestígios de que eles ainda estão preservados em rochas cravadas de enxofre derivadas dos sedimentos do lago. O enxofre deve ter ajudado a proteger os orgânicos mesmo quando as superfícies das rochas foram expostas à radiação e a substâncias tipo alvejantes chamadas de percloratos.

Os novos resultados não são por si só evidências de vida em Marte em tempos antigos: processos não-vivos poderiam ter gerado moléculas idênticas. No mínimo, o estudo mostra traços de como marcianos do passado poderiam ter sobrevivido por eras – caso eles tenham mesmo existido – e isso mostra onde os próximos rovers podem procurar por eles.

“Este é um achado muito importante”, diz Samuel Kounaves, químico da Tufts University e ex-cientista da Nasa. “Existem localidades, especialmente sob a superfície, onde moléculas orgânicas estão bem preservadas”.

Metano sazonal

Além do carbono antigo, o Curiosity capturou sopros de compostos orgânicos que existem em Marte hoje. O rover tem farejado periodicamente a atmosfera de Marte desde que pousou lá. No fim de 2014, pesquisadores em posse desses dados mostraram que o metano – a molécula orgânica mais simples – está presente na atmosfera de Marte.

A presença de metano em Marte é intrigante, por que o elemento sobrevive somente poucas centenas de anos de cada vez, o que significa que, de alguma forma, algo no Planeta Vermelho continua a reabastecê-lo. “É um gás na atmosfera de Marte que realmente não deveria estar lá”, diz o cientista da Nasa Chris Webster.

Além do mais, o comportamento observado no metano de Marte é bizarro. Em 2009, pesquisadores reportaram que inexplicáveis plumas marcianas expeliam aleatoriamente milhares de toneladas de metano de cada vez.

O mais recente estudo de Webster, também publicado na Science, mostra que Marte sazonalmente “respira” esta coisa. A cada verão marciano, a concentração de metano na atmosfera aumenta para cerca de 0.6 partes por bilhão. No inverno, este número decai para 0.2 partes por bilhão.

“Não temos variações sazonais em várias moléculas na atmosfera da Terra, então existir isso em um planeta é literalmente de outro mundo”, diz Eigenbrode. “É uma observação surpreendente”.

Webster e seus colegas acreditam que o metano vem do subsolo e as mudanças de temperatura na superfície de Marte aceleram sua subida. No inverno, o gás poderia ficar preso em cristais de gelo chamados de clatartos, que podem derreter no verão e liberarem o gás novamente.

Mas o que está produzindo metano? Ninguém sabe.

“Nós não podemos dizer realmente se o metano que vemos hoje é produto de serpentinização (uma reação entre rochas cheias de ferro e água líquida) ou atividade de micróbios”, diz Michael Mumma, o cientista da Nasa Goddard que descobriu as nuvens de metano no planeta. “Ou é algo que estava preso ali por tanto tempo e está sendo lentamente liberado?”.

Ainda procurando por vida

Especialistas estão considerando os dois novos estudos como marcos importantes para a astrobiologia.

“É incrivelmente excitante, já que mostra que Marte é um astro ativo ainda hoje”, diz a cientista planetária da Caltech Bethany Ehlmann, especialista no Planeta Vermelho que não estava envolvida nos estudos. “Não é frio e morto — talvez esteja no limite da habitabilidade”.

Mas Webster e outras pesquisadores destacam que esses estudos não são evidência de vida em Marte: “As observações que temos não tiram de cena a possibilidade de atividade biológica, mas não é uma evidência direta disso”.

Para conseguir respostas, os estudiosos precisarão de equipamentos sensíveis o suficiente para detectar vestígios de vida em nível químico. Na Terra, seres vivos fazem mais metano e menos gás etano do que reações entre elementos inorgânicos. Caso os cientistas observem esse tipo de indicativo em Marte, a probabilidade de vida será mais forte.

Missões futuras ajudarão. O foguete ExoMars, da Agência Espacial Europeia, programado para aterrissar em 2020, será capaz de cavar mais de 2 metros abaixo da superfície do solo marciano e analisar as amostras com seus próprios instrumentos. O rover Mars 2020 da Nasa também está programado para coletar pacotes de solo do lugar e deixá-los prontos para futuras missões recolhê-los e trazê-los para a Terra.

Mesmo agora, a missão do ExoMars está fazendo avanços. O satélite de análise de gás da missão chegou ao planeta em 2016 e está coletando dados para que os cientistas mapeiem a produção de metano do local — e até mesmo descubram suas fontes.

“Nós começamos a realizar análises algumas semanas atrás no modo mais sensível, e as equipes estão trabalhando duro para extrair dados sobre o metano”, diz em e-mail o cientista do projeto, Hakan Svedhem. “Acreditamos que poderemos apresentar resultados em algumas semanas”.

 

 

Fonte: National Geographic Brasil